A essa altura, já está claro que essa é uma Copa superlativa. Superlativa no número de equipes: 48. Superlativa no número de países-sede: três. Na temperatura: 97 dos 104 jogos com risco de calor extremo. No preço dos ingressos: absurdos R$55 mil por um lugar na final. E, claro, superlativa no rastro de carbono: estimadas 7,8 milhões de toneladas de carbono equivalente – o ou um ano de emissões de um país como Serra Leoa. (Há ainda a amoralidade superlativa da política xenófoba de Donald Trump e a peleguice, também superlativa, do presidente da Fifa Gianni Infantino, mas isso fica para outro momento).
Em meio a esses números gigantes, convém olhar com atenção para um em específico: o salário de Cristiano Ronaldo. Fenômeno de imagem, o astro português conseguiu o feito, nos últimos anos, de multiplicar seu salário à medida em que seu futebol empobrece. Quando jogava no Real Madrid – período em que ganhou quatro vezes o prêmio de melhor do mundo – ganhava cerca de R$150 milhões por ano. Hoje, aos 41 anos, com um futebol distante daquele jogado nos áureos tempos, recebe dez vezes mais.
Cristiano Ronaldo ganha R$1,5 bilhão por ano porque está a serviço de um projeto político que se sabe nefasto. O nome disse é greenwashing
O salário superlativo de Cristiano Ronaldo – R$1,5 bilhão por ano, ou R$4 milhões por dia – só é possível porque CR7 é jogador do Al-Nassr, time que pertence ao Public Investment Fund (PIF), o fundo soberano da Arábia Saudita. Outros jogadores caros, como o francês Karim Benzema – também eleito melhor do mundo, em 2022 – e o brasileiro Neymar – campeão de um torneio de pôquer organizado por ele mesmo em 2024 – jogam ou jogaram por lá. A liga de futebol do país, até pouco irrelevante, é hoje a primeira, de fora da Europa, que mais enviou jogadores para a Copa – bem mais do que campeonatos de tradição, como o brasileiro, o português e o argentino. O nome disso é dinheiro.
Há mais: a petroleira Saudi Aramco, maior estatal de petróleo do mundo, é patrocinadora master da Copa. Além disso, o fundo soberano saudita firmou um contrato de R$6 bilhões com a Fifa para “fomentar o futebol ao redor do mundo”, seja lá o que isso significa. Não por acaso, o país foi presenteado com a sede da Copa de 2034. O nome disso não é só dinheiro. É greenwashing.
A Arábia Saudita figura, hoje, em segundo lugar na lista dos maiores produtores de petróleo do mundo, com 11,6% da produção total (fica atrás dos Estados Unidos, com 16,2%, e à frente da Rússia, com 10,8%). Por isso, o país se opõe com unhas, dentes e manobras diplomáticas a toda negociação, em COPs, que tente dar um fim gradual ao uso do petróleo.
Não foi por acaso que o presidente da COP30, o embaixador brasileiro André Corrêa do Lago, precisou criar um caminho independente para desenvolver seu roadmap pelo fim dos combustíveis fósseis. Corrêa do Lago se viu impelido a fazê-lo porque o assunto era reiteradamente boicotado pela Arábia Saudita nas negociações oficiais. (A Conferência de Santa Marta, realizada em abril deste ano na Colômbia, também surgiu como uma reação dos países que têm interesse real em achar uma solução rápida para o problema, já que na COP, grandes decisões só avançam por consenso).
O número é repetido à exaustão, mas convém ser lembrado: cerca de 80% das emissões humanas de gás carbônico vêm da queima de combustíveis fósseis – e é o acúmulo de gases como o CO2, na atmosfera, que tem levado o mundo a uma temperatura 1,5ºC acima da que havia no período pré-industrial. Não é de hoje, portanto, que grandes produtores de petróleo tentam melhorar a própria imagem por meio da cultura ou do esporte. Os Estados Unidos têm Hollywood. Os Emirados Árabes abriram uma filial do Louvre, o principal museu francês. Mas nunca antes um país investiu de maneira tão vasta, explícita e planejada no futebol com o objetivo de livrar a própria cara (sim, Rússia e Qatar adquiriram clubes na Europa, em investimentos portentosos, mas ainda assim pontuais).
Cristiano Ronaldo é um dos maiores jogadores da história do futebol. Com 1 bilhão de seguidores nas redes sociais, CR7 é também a celebridade mais influente, ao menos em número de seguidores, da atualidade. Por isso é tão regiamente bem pago, mesmo que tal investimento não resulte em grandes jogadas, ou mesmo em títulos (ele precisou de quatro anos no Al-Nassr para que a equipe ganhasse seu primeiro campeonato árabe).
No fim das contas, o que está em jogo não é futebol. É marketing. É imagem. Cristiano Ronaldo e a Fifa são tão bem pagos porque estão a serviço de um projeto político que se sabe nefasto. Enquanto a humanidade não abrir mão da nossa dependência dos combustíveis fósseis, o mundo aquecerá ainda mais. Haverá mais secas, queimadas, furacões, enchentes, deslizamentos, quebras de safra, imigração em massa e, claro, greenwashing.
O futebol é mágico. Mas é preciso escolher bem os ídolos.