Três estudos recentes dão conta de que o calor extremo tende a ser uma ameaça à Copa de 2026, que começa hoje, com sede nos Estados Unidos, México e Canadá. Uma análise divulgada pela Climate Central concluiu que as mudanças climáticas aumentaram a probabilidade de temperaturas capazes de prejudicar o rendimento dos atletas em 97 das 104 partidas.
O estudo avaliou a probabilidade de as temperaturas ultrapassarem 28°C, patamar associado pela literatura científica à redução da frequência de sprints (arrancadas de alta velocidade). Quase metade das partidas do torneio apresenta pelo menos 50% de probabilidade de ocorrer sob condições capazes de prejudicar o desempenho dos jogadores.
Dos 16 estádios da Copa, só três possuem sistemas de ar-condicionado, o que pode afetar também torcedores e trabalhadores
Em alguns casos, a diferença é ainda mais expressiva. O confronto entre Uruguai e Espanha, marcado para 26 de junho, em Guadalajara, no México, apresenta cerca de 70% de probabilidade de ocorrer acima desse limite de temperatura — um risco 37 pontos percentuais maior do que seria observado em um mundo sem aquecimento global.
Para chegar a esse resultado, os pesquisadores compararam o clima atual, já influenciado pelo aquecimento global causado pela atividade humana, com um cenário hipotético sem mudanças climáticas. Trata-se de uma metodologia conhecida como atribuição climática, amplamente utilizada para medir o quanto as emissões de gases de efeito estufa alteraram a probabilidade de determinados eventos extremos.
Segundo Mike Tipton, professor do Laboratório de Ambientes Extremos da Universidade de Portsmouth, jogar acima de 28°C altera o ritmo, a intensidade e a qualidade das partidas. Os atletas tendem a correr menos, realizar menos arrancadas e criar menos oportunidades ofensivas. Em condições mais severas, aumentam também os riscos de exaustão térmica e insolação. Na prática, isso significa que o calor pode influenciar pressão alta, transições rápidas, recuperação física, tomada de decisão e disposição para assumir riscos ao longo dos 90 minutos.
Evidências já apareceram antes da Copa
A Mundial de Clubes de 2025, ocorrido também nos Estados Unidos, funcionou como uma espécie de laboratório. Um estudo que analisou 57 partidas do torneio constatou que o índice de calor ultrapassou níveis considerados extremos em mais da metade dos jogos. Os pesquisadores encontraram uma relação consistente entre temperaturas mais elevadas e redução das distâncias percorridas pelos atletas, inclusive em velocidades mais altas.
Durante o torneio, jogadores pediram substituição por causa do calor, jornalistas e torcedores passaram mal e algumas partidas sofreram atrasos. Em determinados casos, reservas permaneceram em ambientes climatizados durante parte do jogo para reduzir a exposição ao calor extremo.
Impactos para além dos gramados
Outro estudo recente, conduzido pela World Weather Attribution (WWA), concluiu que cerca de um quarto dos jogos desta Copa poderá ocorrer sob níveis de estresse térmico que exigem medidas especiais de proteção aos atletas. Aproximadamente cinco partidas podem atingir condições consideradas inseguras para a prática esportiva segundo os parâmetros da FIFPRO, entidade que representa jogadores profissionais em todo o mundo.
A pesquisa utilizou um indicador chamado Wet Bulb Globe Temperature (WBGT), considerado o padrão mais adequado para avaliar riscos associados ao calor. Diferentemente da temperatura tradicional, ele incorpora fatores como umidade, radiação solar e circulação do vento — elementos que determinam a capacidade do corpo humano de dissipar calor. Acima de 26°C de WBGT, a FIFPRO recomenda pausas obrigatórias para resfriamento. Acima de 28°C de WBGT, especialistas recomendam considerar o adiamento das partidas.
Os resultados do estudo ganham ainda mais relevância quando comparados às condições observadas na última Copa realizada na América do Norte, em 1994. Segundo os pesquisadores, o risco de calor extremo durante o torneio praticamente dobrou desde então, até porque cerca de metade do aquecimento global provocado pela atividade humana ocorreu justamente nesse período. Como resume a pesquisadora Joyce Kimutai, do Imperial College London, “o clima em que o torneio será disputado mudou fundamentalmente em apenas 32 anos”.
A própria final da Copa ilustra essa transformação. Disputada em Nova York/Nova Jersey, ela apresenta hoje aproximadamente o dobro do risco de enfrentar condições de calor extremo em comparação com a final realizada nos Estados Unidos em 1994, que já foi extremamente quente. Além da final, o estudo aponta que duas partidas das quartas de final e a disputa pelo terceiro lugar também estão entre os jogos com maior risco de calor extremo durante o torneio.
Uma das imagens mais emblemáticas desta Copa talvez não seja um gol decisivo nem uma defesa espetacular, mas justamente uma pausa para hidratação. Dos 16 estádios utilizados, apenas três possuem sistemas de ar-condicionado – o que pode afetar também os torcedores e trabalhadores.
Mantidas as tendências atuais, estima-se que, até 2050, 14 dos 16 estádios-sede enfrentem condições de calor consideradas perigosas. Em 11 deles, os pesquisadores projetam níveis potencialmente incompatíveis com a realização segura de partidas.
Desafio maior
O que acontece nesta Copa oferece uma prévia de um desafio muito maior. O mesmo calor extremo que afeta atletas e altera a dinâmica das partidas também impacta trabalhadores, sistemas de saúde, cidades, produção de alimentos e economias inteiras ao redor do mundo.
O futebol apenas torna esse fenômeno mais visível. Como observou Simon Stiell, secretário-executivo da ONU Mudança do Clima, quando vemos uma partida interrompida para hidratação ou afetada pelo calor extremo, vale lembrar que isso não acontece por acaso. É consequência de um planeta que continua aquecendo devido à queima de combustíveis fósseis.
>> Para acompanhar os impactos das mudanças climáticas ao longo dos jogos da Copa do Mundo, a Climate Central está publicando análises semanais sobre as partidas mais afetadas pelo calor extremo e outros riscos climáticos durante o torneio. As atualizações são enviadas gratuitamente semanalmente por meio de um boletim. Mais informações aqui.