Começam hoje as oitavas de final da Copa do Mundo, com um jogo que já foi apelidado pelos comentaristas da Central da COP de “O Clássico das NDCs”. De um lado, o Marrocos, país de 38 milhões de habitantes que ocupa o 49º lugar no ranking mundial que mede a emissão de gases de efeito estufa. De outro, o Canadá, país parecido em população (41 milhões de pessoas), mas superlativo em área (2º maior do mundo), produção de petróleo (4º no ranking mundial) e emissões (10º lugar).
A discrepância entre os dois países se faz presente também nas respectivas metas climáticas. Apesar de ter responsabilidade maior no quadro atual de aquecimento do planeta – ou talvez por causa disso -, o Canadá tem decepcionado COP após COP, apresentando NDCs que ficam aquém do que se espera de um país tão grande e rico. Já o Marrocos tem sido elogiado por sua ambição climática.
A NDC do Canadá tem a segunda pior das cinco notas possíveis do Climate Action Tracker; a do Marrocos tem a segunda melhor
NDC é a sigla em inglês para Contribuição Nacionalmente Determinada, o documento que todo país filiado à UNFCCC precisa apresentar – e atualizar, a cada cinco anos – para deixar claro o que pretende fazer, em termos práticos, para evitar que a temperatura do planeta continue subindo. Tanto Marrocos quanto Canadá apresentaram suas últimas NDCs em 2025, gerando reações opostas da sociedade civil.
Comecemos pelo Marrocos: a terceira NDC do país, que foi submetida à UNFCCC em setembro de 2025, demonstrou uma ambição maior em relação à meta anterior, cumprindo o requisito do Artigo 4 do Acordo de Paris, que exige melhorias a cada versão. No campo da mitigação, o país se comprometeu a triplicar a capacidade de energia renovável até 2030 e a reduzir as emissões em 53% até 2035 (desde que condicionado ao apoio internacional). O país anunciou também, uma data para o phaseout incondicional do carvão: 2040, mas deixou claro que a data pode ser antecipada contanto que haja apoio internacional para lidar com o encerramento de usinas. Essa data coloca o Marrocos em posição de liderança segundo os padrões da Powering Past Coal Alliance (PPCA), da qual o país é agora membro.
No campo da adaptação, a NDC foi além do que a maioria dos países faz: dedicou um capítulo inteiro ao tema, listando 80 objetivos setoriais para 2035. O documento apresentou, também, um capítulo separado e igualmente detalhado sobre perdas e danos — algo raro entre as NDCs submetidas.
Na área financeira, o documento especificou a previsão de gastos do governo e do setor privado, além da cooperação internacional. Apresentou também um projeto de integração explícita da ambição climática com o planejamento orçamentário nacional — um nível de detalhamento e coerência fiscal que posiciona o país como referência no tema.
Por ora, o Climate Action Tracker ainda não conseguiu cravar se as políticas e ações estão alinhadas com a meta de frear o aumento da temperatura mundial a 1.5ºC acima da média do período pré-industrial, mas a NDC anterior do Marrocos já era classificada como “quase suficiente” – a segunda melhor nota das cinco possíveis – e essa teve uma progressão de ambição.
Mau exemplo
Já o Canadá apresentou sua NDC em fevereiro de 2025, dando tempo para que o documento fosse analisado pelo Climate Action Tracker, que o classificou como “altamente insuficiente” – a segunda pior das cinco notas possíveis. O Canadá é o único país do G7 que não reduziu suas emissões abaixo dos níveis de 1990, e ainda projeta aumentar a produção de petróleo e gás, setor responsável por 31% das emissões em 2022.
A meta central da NDC apresentada pelo país é a de reduzir as emissões em 45–50% abaixo dos níveis de 2005 até 2035. O requisito de progressividade em relação à NDC anterior (40–45% até 2030) foi formalmente cumprido, mas com ressalvas importantes, já que tal meta não é compatível com um aquecimento máximo de 1,5°C em relação ao período pré-industrial. Para alinhar-se a uma trajetória doméstica compatível com 1,5°C, o Canadá precisaria reduzir suas emissões em 65% abaixo dos níveis de 2005 até 2035. Pior: para cumprir sua justa contribuição (fair share), que leva em conta outros critérios, como a responsabilidade histórica do país, a redução necessária teria de chegar a pelo menos 87%.
O Canadá possui uma estratégia de longo prazo, mas a NDC apresentada não atualizou as contribuições esperadas por setor em relação aos valores comunicados em 2022 — uma lacuna particularmente preocupante dado que o país já está fora do caminho para cumprir sua meta de 2030. A NDC também não incluiu prazos para o phaseout de carvão, petróleo ou gás.
No campo do financiamento climático internacional, o Canadá comunicou a intenção de destinar até US$2,3 bilhões para mitigação em países em desenvolvimento entre 2021 e 2026, mas suas contribuições efetivas até o momento foram baixas — e o país continua financiando o desenvolvimento de combustíveis fósseis no exterior. O Climate Action Tracker avaliou tais compromissos também como “altamente insuficientes”.
Portanto, quando Marrocos e Canadá entrarem em campo, hoje, você já saberá para qual país torcer – isso, claro, se o seu critério futebolístico (e social) levar em conta o interesse em evitar um cataclisma climático.