O Brasil conta com um elenco invejável na geração de energia elétrica limpa. A rápida expansão das fontes eólica e solar faz com que elas já representem 38% da capacidade instalada do país, consolidando, junto com os 47% das usinas hidrelétricas, uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Mas o time ainda sofre com um problema tático: sobra energia renovável em alguns momentos da partida e falta potência justamente nos horários de maior demanda. Sem sistemas de armazenamento e outras soluções de flexibilidade, uma parte dessa energia acaba ficando no banco, ou melhor, desperdiçada devido ao curtailment (redução ou o corte forçado na geração de energia elétrica). Em 2025, esse desperdício chegou a 20,6%, mostrando que o desafio está em saber empregar a energia limpa no momento certo.

Enquanto isso, as decisões de planejamento seguem uma estratégia, por assim dizer, mais antiquada, para ficar em um eufemismo. O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de março de 2026 contratou cerca de 16,8 GW geradas por usinas termelétricas movidas a gás natural, carvão e óleo combustível, buscando dar potência ao sistema. O resultado é um contrato de longo prazo com fontes fósseis que pode gerar até 40 MtCO₂e por ano em cenário de maior utilização e ainda impor custos fixos elevados aos consumidores, mesmo quando essas usinas permanecem sem operar.

O ministro de Minas e Energias, Alexandre Silveira: convocação de termelétricas vai contra o plano do país de reduzir a emissão de carbono

Em vez de apostar em um esquema mais moderno (como por exemplo, hidrelétricas reversíveis, armazenamento por baterias, resposta da demanda, biomassa e biometano e outras tecnologias capazes de dar flexibilidade ao sistema), o Brasil insiste em reforçar um setor mais caro, mais poluente e menos eficiente. É como ter um elenco talentoso de atacantes e optar por escalar um time retrancado. A energia limpa está pronta para decidir a partida, mas acaba assistindo ao jogo do banco de reservas.

O movimento que levanta preocupações econômicas, operacionais e climáticas. Realizado em duas etapas nos dias 18 e 20 de março, o leilão contratou cerca de 19,5 GW de potência com investimentos de R$ 64,5 bilhões e entregas previstas entre os anos de 2026 e 2031. Desse total, aproximadamente 16,8 GW correspondem a termelétricas fósseis, incluindo usinas a gás natural, carvão, óleo combustível e diesel. O Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) produziu uma documento mais embasado sobre o caso

A maior parte da capacidade contratada é proveniente de usinas termelétricas a gás natural, que somam 15.170 MW. Também foram contratadas termelétricas a carvão (1.264MW), óleo combustível (20 MW), diesel (383 MW), biodiesel (98 MW) e biometano (41 MW), além de hidrelétricas, que totalizam 2.502MW.

A ampliação das termelétricas apresentadas como solução para garantir segurança elétrica não resolve o principal problema atual da geração de energia do país: a variabilidade de fornecimento das renováveis. “O Brasil enfrenta simultaneamente excesso de geração e falta de potência em determinados horários, provocando um grande volume de desperdício de energia renovável”, afirma Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

A contratação de cerca de 19,5 GW de capacidade, majoritariamente por meio de usinas termelétricas, foi apresentada como resposta à necessidade de segurança energética. Porém, o principal gargalo do sistema não é a falta de geração, mas a ausência de mecanismos adequados para lidar com o sobressalente e a variabilidade das fontes renováveis.

“O LRCAP contratou um volume excessivo de térmicas, com perfil inadequado de flexibilidade e, com isso, perdeu a oportunidade de conciliar soluções mais alinhadas à transição energética, como o armazenamento de energia, a resposta da demanda e a modernização dos sinais econômicos do leilão. Investimentos em transmissão e em modelos mais avançados de previsão também poderiam reduzir a necessidade de contratação adicional de capacidade”, ressalta Baitelo.

As emissões devem atingir seu pico entre 2031 e 2036, período em que os contratos entram em operação de forma escalonada, com maior sobreposição entre os empreendimentos.

Nordeste e Rio de Janeiro serão mais afetados

As usinas contratadas se concentram principalmente no litoral do Nordeste e no estado do Rio de Janeiro, além de alguns pontos da Região Norte, geralmente próximas a infraestruturas já existentes de gás natural.

Esse padrão leva à concentração de impactos socioambientais nesses territórios, podendo levar a conflitos em áreas já sujeitas ao estresse hídrico e problemas relacionados à qualidade do ar. Municípios como Caucaia (CE), Barra dos Coqueiros (SE), Macaé (RJ) e Ipojuca (PE) já registram sobreposição de usinas existentes e novas, com aumento significativo da capacidade instalada. Apenas em Caucaia e Barra dos Coqueiros, foram adicionados cerca de 4 GW.