Duas seleções sem muita tradição se enfrentaram na madrugada neste domingo na Copa do Mundo: Austrália e Turquia, com vitória de 2 a 0 para os australianos. Convém, agora, que a rivalidade fique restrita aos gramados, já que, num sentido bastante real, o futuro da humanidade depende da união de turcos e australianos. Essas duas nações sem nada em comum exceto a falta de intimidade com a bola dividem a presidência da COP31, a conferência do clima de 2026, que acontece na cidade turca de Antália, mas com os australianos presidindo as negociações.

É a primeira vez nos 34 anos de Convenção do Clima da ONU que isso acontece. A Turquia tem a sede e a presidência da COP, ou seja, é a responsável pelas decisões da conferência e por abrigar com alguma dignidade dezenas de milhares de delegados de 197 países, representantes da sociedade civil e jornalistas (depois de Belém o sarrafo está baixo pra isso). Mas a Austrália pilotará as salas de negociação, onde diplomatas e ministros passarão duas semanas brigando por vírgulas, colchetes e palavras. Para usar uma analogia de futebol, os australianos não chutarão a gol, mas armarão as jogadas. Se o ministro australiano da Energia Chris Bowen errar os passes, o presidente turco da COP, Murat Kurum, não põe a bola na rede e a conferência fracassa.

Dupla: a Turquia já ameaçou sair do Acordo de Paris; a Austrália foi um dos algozes do Protocolo de Kyoto

Essa configuração improvável de dupla de ataque decorre de um duelo entre os dois países travado na COP30, no ano passado, com gol da Turquia. A Austrália se ofereceu para sediar a COP31 na cidade de Adelaide, mas o país eurasiático também quis, bateu o pé e levou. O autocrata turco, Recep Erdogan, vê o evento internacional como uma oportunidade de se reposicionar geopoliticamente e lavar a própria imagem de tirano safado (tipo, “safado, não!”). Como prêmio de consolação, a Austrália ficou com as negociações.

Em Bonn, Alemanha, onde se encontraram para o início formal das negociações da COP31 no último dia 8, Kurum e Bowen vêm tentando algum entrosamento, apesar de o ministro turco não falar inglês e de o australiano ter passado meses de castigo em Canberra sem poder viajar para se encontrar com o parceiro – a oposição conservadora acusa o ministro da Energia de passar tempo demais no exterior e não ligar para a crise energética que o país atravessa, em decorrência da agressão feita por Donald Trump, aliado dessa mesma oposição conservadora, ao Irã. Na plenária de abertura, ambos discursaram lado a lado, com Kurum breve e cauteloso, limitando-se a listar os itens que constarão na agenda da COP, e Bowen citando o fechamento do estreito de Hormuz para dizer que a transição energética “não é um risco, é uma oportunidade”.

Não é só no futebol que os dois países líderes da COP31 têm pouca tradição. A diplomacia climática não é exatamente o forte de nenhum deles. A Turquia ameaçou sair do Acordo de Paris no primeiro governo Trump; a Austrália, maior exportador de carvão mineral do mundo, teve nos últimos 20 anos uma série de governos negacionistas climáticos e foi um dos algozes do Protocolo de Kyoto, o acordo climático que antecedeu o de Paris. Embora ambos sejam membros do G20 e, portanto, grandes emissores, não costumam liderar grandes movimentos nas COPs de clima. 

Há diferenças na maneira como ambas as presidências percebem a COP31. A Turquia quer botar força total na chamada Agenda de Ação, a série de compromissos voluntários que países, empresas e governos subnacionais adotam (e cumprem se quiserem, e se não cumprirem ninguém fiscaliza). O argumento é que tudo que precisava ser negociado no Acordo de Paris já foi, e a hora é de “trazer a era da implementação para o mundo real”, como disse Kurum em Bonn na segunda-feira. Não vão bloquear nada, mas trabalham com ambição mínima: para dar uma ideia, uma das agendas consideradas mais importantes pela presidência da COP para a conferência de Antália é a de emissões de resíduos sólidos – que são o assunto de estimação da primeira-dama turca, Emine Erdogan, apesar de responderem por menos de 5% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. 

Os vizinhos do Pacífico

Já os australianos vêm tentando se posicionar mais firmemente em defesa da transição energética, talvez pressionados que estão pela vizinhança do Pacífico – onde ficam os países mais afetados pela crise do clima e, portanto, os mais ambiciosos do Acordo de Paris: as ilhas que desaparecerão em algumas décadas com o aumento do nível do mar. (Ainda assim, a Austrália fica sempre muda na hora de falar de financiamento para adaptação, que foi uma das grandes brigas de Belém e será uma das grandes brigas de Antália.)

A defesa da eletrificação do sistema energético global aparentemente é o que une as duas abordagens: permite que os turcos posem de progressistas sem precisar usar a expressão tóxica “transição para longe dos combustíveis fósseis”, que é literalmente proibida entre algumas delegações (como a Índia e a Arábia Saudita), ficando bem com os países emergentes, e que os australianos falem da necessidade de cortar emissões no setor de energia e fiquem bem com os vizinhos submergentes.

Na última terça-feira, Murat Kurum lançou em Bonn um compromisso, também como parte da Agenda de Ação de Antália, de elevar de 20% para 35% até 2035 o percentual de energia elétrica na matriz global. Segundo ele, essa será uma das “prioridades definidoras” da COP31. Resta saber se isso bastará para satisfazer as ilhas do Pacífico e os 57 países que compareceram à conferência de Santa Marta em abril para fazer avançar a agenda de pôr fim aos combustíveis fósseis. Para limitar o aquecimento global a 1,5ºC, a meta cada vez mais impossível de Paris, sabemos que não basta.