Ao que me consta, ainda não existe nome para as atitudes de Donald Trump em relação à crise do clima. Mas é hora de pararmos de chamar o sociopata-em-chefe dos Estados Unidos de “negacionista”. Ele é algo muito pior do que isso.
Negacionismo climático é, como o nome indica, a ideologia que nega a existência do aquecimento global, a influência humana sobre ele ou a gravidade de seus impactos, em geral para isentar determinados setores econômicos da responsabilidade de atacar as causas do problema ou pagar os prejuízos ou a adaptação.

Variações dessa ideologia são esposadas por tribos distintas: há os negacionistas-raiz, representados por think-tanks em geral anglo-saxões, como o Instituto Cato e o Instituto Heartland, nos EUA. Ligados à e generosamente financiados pela indústria fóssil, esses australopitecos do obscurantismo gastam rios de tinta para demonstrar supostas falhas na ciência climática que invalidariam todas as suas conclusões. É a estratégia da cunha, que consiste em plantar dúvida travestida de debate científico na cabeça do público.
Uma segunda geração de negacionistas é representada por gente já não tão jovem como o estatístico dinamarquês Bjorn Lomborg e o economista holandês Richard Tol. O argumento central é econômico: gastar com controle do clima significa reduzir a prosperidade da sociedade global hoje, e isso seria mau negócio porque a) os impactos não são tão graves assim; e b) a humanidade estará muito mais rica no futuro, portanto melhor equipada para lidar com e eventualmente resolver o problema. Lomborg e seus descendentes “intelectuais”, como um brasileiro que tentou causar na COP30, bebem do pensamento do protonegacionista William Nordhaus. Esse economista americano argumenta há décadas contra a ação climática com base na questão da prosperidade futura – conhecida no jargão econômico como “taxa de desconto”.
O negacionismo econômico e suas variantes fez escola e influencia governos mundo afora. Você o encontrará dos EUA de George W. Bush no começo do século à Índia de Narendra Modi nos dias de hoje. Dele deriva uma outra ideologia paranegacionista, tecnocrática e disfarçada de ciência honesta: a do overshoot climático, detalhada pelos suecos Wim Carton e Andreas Malm em livro homônimo. O overshoot é a crença em que o aumento da temperatura acima de um dado limiar (digamos, 1,5oC) pode ser tolerado se no futuro tivermos uma grande quantidade de “emissões negativas” que tragam os termômetros novamente para baixo.
Estas duas vertentes principais do negacionismo flertam com o neoliberalismo e são professadas pela direita. Mas há, ainda (e a lista não é exaustiva), uma extração mais ecumênica, por assim dizer: o pensamento segundo o qual nós precisamos dos combustíveis fósseis para bancar a transição para fora dos combustíveis fósseis. Muita gente na esquerda, no Brasil inclusive, pensa assim.
De Mar-a-Lago a Ilulissat
Donald J. Trump não pertence a nenhuma dessas gangues. Ao mesmo tempo em que chama a mudança climática de “con job”, ou “cambalacho”, e prega contra energia eólica, Trump faz movimentos de quem sabe muito bem que a Terra está esquentando. Dois deles aconteceram neste ano que mal começa: o sequestro da Venezuela e a nova ameaça de anexação da Groenlândia.
No primeiro caso, Trump não buscou nem disfarçar que o interesse é em controlar as maiores reservas de petróleo do planeta. Mas por que o país que já é o maior produtor do mundo quer mais petróleo, num momento em que já há excesso de oferta no planeta, correndo o risco de derrubar demais os preços e inviabilizar a produção nos próprios EUA?
Não está claro, mas análises recentes vêm sugerindo que o sequestro do país sul-americano (sim, o país foi sequestrado, não apenas seu ditador) tem o objetivo duplo de beneficiar a infraestrutura de refino montada pelos americanos no Golfo do México para processar petróleo pesado e de tornar a energia fóssil mais barata. O corolário oculto desta afirmação é que o petróleo está perdendo competitividade como fonte de energia. E para quem? Você adivinhou: para as renováveis. Trump entendeu a solução para a crise climática, mas quer fazer dinheiro vendendo o problema. A expectativa parece ser dobrar a aposta em óleo e gás para quebrar as indústrias renováveis que, por décadas sem incentivo nos EUA, hoje florescem na China e na Europa. E, ao mesmo tempo, impor uma espécie de economia de regatão em países sob sua zona de influência, criando mercado cativo para produtos americanos altos em carbono.
A ameaça à Groenlândia, que pode levar à implosão da Otan, tem cara de uma operação de hedge. Como já escrevi neste espaço, por mais que negue da boca para fora o aquecimento global e venha agindo para desmontar todas as políticas de clima do país, Trump também sabe que o futuro da tecnologia está na energia limpa, que precisa de minerais críticos (seu ex-auxiliar e hoje inimigo Elon Musk, afinal, virou o homem mais rico do mundo vendendo carros elétricos). A Groenlândia tem reservas imensas de terras raras e outros minerais importantes para a indústria da alta tecnologia, cuja exploração é cada vez mais facilitada pelo derretimento do manto de gelo que cobre 80% da ilha e das neves de inverno.
A ideia de anexar aquele território ártico, portanto, visa proteger a fonte de lucro de seus amigos bilionários e ao mesmo tempo ter uma carta para jogar na mesa num mundo que ele terá ajudado a esquentar 3oC e que não poderá prescindir das novas tecnologias nem das matérias-primas para elas. Os amigos do presidente farão dinheiro duas vezes: vendendo primeiro o problema (mais petróleo), depois a solução.
Ao mesmo tempo, a alegação de que a Groenlândia é necessária para a segurança nacional e que “só a posse” garante o exercício dessa segurança passa pelo reconhecimento tácito de que um Ártico sem gelo está sendo cada vez mais visitado por rivais estratégicos como Rússia (que, de resto, é o maior país ártico do mundo e nunca deixou de estar presente na região) e China. O plano de desenvolver a maior ilha do mundo, sabe Odin com quantos cassinos e resorts, conta com o fato de que a mudança do clima está transformando profundamente o local. Parece um episódio de Extrapolations, mas é capitalismo da pior espécie.
E, definitivamente, não é coisa de negacionista do clima. É coisa de gente que sabe exatamente o que está acontecendo, sabe o que vai acontecer e sabe que tem dinheiro o bastante para se proteger – talvez mudando Mar-a-Lago para Ilulissat quando a elevação dos oceanos tornar o golfe na Flórida impraticável. Ou, o que seria mais grave, poderia ser um flerte de Trump com o aceleracionismo, a ideologia completamente abilolada de tech bros do Vale do Silício como o psicopata Peter Thiel e o próprio Elon Musk segundo a qual é preciso acelerar a destruição da Terra para reconstruí-la com a raça superior de engenheiros brancos auxiliados pela inteligência artificial super-humana.
Um subsídio perigoso
Tanto o caso venezuelano quanto o groenlandês repetem o padrão de Trump como empresário de comprar na baixa com subsídios públicos e vender na alta. Foi isso o que ele fez no início dos anos 1980 em Nova York, quando chantageou políticos locais para receber generosos cortes de impostos para negócios milionários com imóveis de luxo em zonas degradadas de Manhattan. O esquemão, retratado nos filmes Hypernormalization, de Adam Curtis, e O Aprendiz, de Ali Abbasi, tornou Trump bilionário e ajudou a fazer de Nova York uma das cidades mais excludentes do mundo.
Os territórios dos quais ele se apossa ou tenta se apossar agora servirão para enriquecer ainda mais Trump e sua corriola, que se julgam imunes aos impactos da crise do clima. Implodir a governança internacional sobre o tema, como Trump tentou fazer no ano passado ao sair do Acordo de Paris e neste ano ao abandonar a Convenção do Clima (à qual dificilmente uma nova administração americana poderá se juntar novamente, pois isso depende de uma improvável nova ratificação pelo Senado), equivale a chantagear a Câmara de Vereadores de Nova York para que ninguém possa impedir o negócio ou cortar o subsídio.
O problema é que o subsídio, desta vez, é o próprio planeta.