Em que lugar da Terra está Gianni Infantino, o presidente da Fifa? Em Boston, Los Angeles, Vancouver, Houston, ou em Guadalajara? No dia 26 de junho, Infantino amanheceu em Miami, voou para Dallas, seguiu para Seattle e voltou para Miami, cruzando duas vezes os céus dos Estados Unidos. No total, assistiu a 24 jogos durante os 17 dias da fase de grupos da Copa do Mundo. Usou um Gulfstream 650ER, avião particular com capacidade para 18 pessoas, para viajar ensandecidamente entre EUA, México e Canadá, emitindo 516 toneladas de carbono equivalente, de acordo com um levantamento da BBC britânica. Um reles mortal precisaria de 78 anos para chegar a esse ponto.

Essa não é a primeira vez que Infantino exercita a onipresença. Na Copa de 2022, sediada no Qatar, o presidente da Fifa assistiu in loco a todos os 64 jogos. Mas o país do Oriente Médio é duas vezes menor, em área, do que o estado de Sergipe – que por sua vez, já é o menor estado do Brasil. Naquela Copa, a distância entre qualquer um dos oito estádios era percorrida em não mais do que uma hora de carro (sim, a Fifa construiu oito estádios em um país de 3 milhões de habitantes, sem nenhuma tradição no futebol, com 0,13% da área do Brasil, mas isso fica para outro momento).

A Fifa prometeu reduzir emissões em 50% até 2030, mas deve contribuir, nesta Copa, com 9 milhões de toneladas de carbono equivalente

A diferença entre 2022 e 2026 é que a Copa atual acontece em três países enormes, sendo dois deles, Canadá e Estados Unidos, de extensão continental. Logo, Infantino percorreu 50 mil quilômetros – mais do que uma volta ao mundo – apenas na fase de grupos da competição. Desde o levantamento feito pela BBC, Infantino foi visto em estádios outras treze vezes, de acordo com o site BCE Football News, totalizando 37 jogos. 

Como é de se esperar que o presidente da Fifa assista a todos os próximos jogos até a final, a conta deve chegar a 45 partidas. Valendo-se da média viajada até aqui, sua pegada climática chegará, assim, a 967,5 toneladas de carbono equivalente. É o que um de nós levaria 147 anos para emitir, a se levar em conta a média mundial de emissão individual estipulada pela União Europeia. Em suma: precisaríamos de duas ou três gerações para fazer, ao mundo, o mesmo mal climático que um único homem terá feito em um mês e meio. Sete a um é pouco para essa derrota.

Não nos falta matéria prima na hora de elencar os momentos mais nefastos desta Copa ciceroneada por um autocrata fascista e seu capacho na Fifa. Por ordem cronológica: a proibição de que os jogadores do Irã dormissem em solo americano. A deportação do juiz Omar Artan, da Somália. A revista dos atletas de Senegal em plena pista do aeroporto. A “suspensão da suspensão” do principal atacante dos Estados Unidos. 

Há ainda duas tragédias sociais. A primeira diz respeito ao aumento de prisões cometidas pelo ICE, a polícia migratória dos EUA, que passou a “trabalhar” com uma meta de 2 mil encarceramentos por dia, de acordo com apuração do New York Times. A segunda versa sobre o rompimento unilateral do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã – isso na semana em que os dois últimos países de maioria muçulmana, Marrocos e Egito, foram desclassificados da Copa, restando uma penca de europeus sem interesse algum em se pronunciar sobre o assunto.

Triste protagonista

Há, por fim, a tragédia climática. Apesar de ter se comprometido a reduzir as emissões em 50% até 2030 e zerá-las até 2040, a Fifa deve contribuir, nesta Copa, com ao menos 9 milhões de toneladas de carbono equivalente – mais que o dobro do que a média de emissão das últimas quatro competições. Essa é a mesma Fifa que tentou enganar o mundo ao dizer que a Copa do Qatar seria a primeira com pegada neutra de carbono, e que declarou, quatro anos atrás, estar “plenamente ciente de que as mudanças climáticas são um dos desafios mais urgentes do nosso tempo”, o que “exige que cada um de nós adote ações climáticas imediatas e sustentáveis”. Pode isso, Arnaldo?

A imprensa esportiva brasileira inventou de apelidar esta de “a Copa dos protagonistas” – uma referência a jogadores já em fim da carreira, como Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Luka Modric e Neymar Jr, que dificilmente estarão de volta na Copa de 2030, a ser jogada em seis países de três continentes. Quem é mesmo que falou em cortar as emissões pela metade até 2030? 

Por ora, o único protagonismo digno de nota – e de asco – desta Copa é o da desumanização. Desumanização de um árbitro africano, deportado sumariamente de volta para casa. Desumanização dos imigrantes latino-americanos, presos no entorno dos estádios. Desumanização de uma equipe muçulmana, impedida de jogar em condições de igualdade por ter cometido o “crime” de ter seu país bombardeado pelo anfitrião. E, claro, desumanização de tudo que diz respeito ao futuro da humanidade. 

O rastro de sujeira obrado por Gianni Infantino, em forma de carbono, é terrível. Mas não poderia ser mais adequado para representar uma Copa que não deixa nenhum legado, ao mundo, para além da própria podridão.