De tempos em tempos, americanos têm ideias malucas sobre a Groenlândia. A minha preferida, do fim dos anos 1950, foi a tentativa de criar uma ferrovia para o transporte de mísseis atômicos debaixo do manto de gelo da ilha, e que levou ao estabelecimento de uma cidade subglacial com bares, cinema e um reator nuclear. Se você não acredita, dê um Google em Camp Century.
O Camp Century teve de ser desmontado em 1967, depois que o Exército dos EUA se deu conta de que o gelo estava em constante movimento e a cidade subterrânea começou a ser esmagada. A aventura, de uma lisergia kubrickiana, teria sido apenas um rodapé ridículo da Guerra Fria, exceto por um de seus subprodutos: os cientistas levados para a minicidade para entender a dinâmica do gelo produziram ali a primeira reconstituição de longo prazo do clima da Terra, usada até hoje para entender o aquecimento global.
Na semana passada, os Estados Unidos avançaram em mais uma ideia maluca sobre a maior ilha do mundo: o vice-presidente JD Vance, encarregado por Donald Trump de destruir as relações com a Europa, visitou a base americana de Pituffik, no norte do país, como parte do anúncio da intenção de tomar a Groenlândia para os EUA caso a Dinamarca, que formalmente é dona do território, se recuse a vendê-la. Desta vez não dá para imaginar nenhum subproduto da sandice que não seja uma guerra com aliados de 80 anos. A Otan, a aliança militar transatlântica criada pelos EUA e da qual a Dinamarca faz parte, tem como princípio interpretar qualquer agressão a um dos membros como agressão ao bloco. Mas nada podia preparar a aliança para reagir quando a agressão é feita pelo seu país fundador.
A gélida ilha de 1,8 milhão de quilômetros quadrados (quase o tamanho da Argentina), que tem 80% de seu território coberto por um manto de gelo de até 3 km de espessura, é um dos maiores vazios demográficos do mundo. Seus 57 mil habitantes não encheriam o estádio Mané Garrincha em dia de jogo do Campeonato Brasileiro. Sua posição geográfica, porém, lhe garantiu por décadas um lugar quentinho no coração dos estrategistas dos EUA. A apenas cinco horas de voo de Washington, a Groenlândia está no meio do caminho entre os Estados Unidos e a Europa e sua porção norte está de frente para o Oceano Ártico, que separa a América do Norte da Rússia.
Os americanos instalaram ali, na Segunda Guerra Mundial, uma base aérea que até hoje é o principal aeroporto groenlandês (as instalações militares foram transformadas em um hotel e um alojamento para cientistas). Em 1946, fizeram a primeira tentativa de comprar a ilha da Dinamarca, por US$ 100 milhões. E em 1951, com a Guerra Fria em pleno curso, instalaram em Thule, na ponta noroeste, uma outra base aérea dotada de um sistema de radar para fazer a detecção precoce de mísseis balísticos disparados pelos soviéticos. Em 2023 o nome da base, derivado da mitologia grega, foi trocado para o inuíte Pituffik, num reconhecimento à cultura groenlandesa que Elon Musk certamente condenaria como woke.

Com a queda do Muro de Berlim, o interesse estratégico dos EUA no Ártico minguou. A frota de submarinos nucleares que patrulhava o oceano glacial (e nos forneceu dados sobre a espessura e a dinâmica do gelo marinho que até hoje são usados para monitorar seu colapso) foi desmobilizada, os quebra-gelos militares foram sucateados e a Groenlândia foi deixada em paz. Isso até o início deste século, quando os habitantes da ilha começaram a se ver às voltas com um outro problema colateral da expansão americana: o aquecimento global.
Eu visitei a Groenlândia duas vezes, em 2011 e 2013. Em ambas ocasiões, encontrei um país completamente transformado pelos impactos da mudança do clima. Transformado, mas não necessariamente transtornado. Conversei com caçadores de focas (há 125 pinípedes para cada ser humano na ilha) que, impedidos de praticar sua tradicional caça a bordo de trenós devido ao derretimento cada vez mais precoce do gelo marinho, transformaram-se em prósperos pescadores de camarão; com capitães de navios de suprimento que hoje conseguem entregar suas cargas tranquilamente em cidades que passavam a maior parte do ano inacessíveis devido à grossa camada de gelo; e com políticos locais animados com a perspectiva econômica aberta pela mineração, pela agricultura e pelo petróleo.
A Groenlândia tem potencial de bilhões de barris identificado pelo Serviço Geológico dos EUA na baía de Baffin, na costa leste da ilha. A redução do gelo marinho tem tornado os mares ali mais acessíveis e, portanto, reduzido o custo da atividade petroleira. No continente, a redução do gelo tem aumentado a exposição de jazidas de cobre, ouro e outros minérios, bem como seu acesso pelos fiordes do litoral. A ilha tem também a oitava maior reserva do mundo de terras raras, metais com nomes exóticos como térbio e disprósio, essenciais para componentes eletrônicos e para as tecnologias de energia limpa. Uma mina já opera em Kvanefjeld, no sul do país.
Embora formalmente colônia dinamarquesa, a Groenlândia tem autogoverno desde 2008, com instituições políticas próprias e um Parlamento eleito. O sonho de Kalaallit Nunaat, como o país é chamado na língua nativa, é comprar a própria independência da Dinamarca (que hoje paga US$ 600 milhões por ano à Groenlândia) usando a renda das indústrias extrativas.
“ESPAÇO VITAL”
Há decerto melancolia pelas tradições perdidas e transtornos novos no cotidiano dos groenlandeses, como tempestades, enxurradas que destroem pontes e terremotos causados pela súbita elevação da crosta terrestre ao perder o peso do manto de gelo, escoado para o oceano. Há também a clareza de que os melhores empregos trazidos pelas novas indústrias não ficarão com os indígenas, mas sim com os estrangeiros. Mesmo assim, a aposta dos groenlandeses é na mineração e no petróleo como seu proverbial “passaporte para o futuro”. “Queremos ser que nem vocês”, me disse um político groenlandês, citando o pré-sal.
Mas aí veio Donald Trump. E os groenlandeses começaram a entender que seu tíquete para a independência de uma potência colonial relativamente benigna pode acabar lhes custando a anexação pelo novo Império do Mal (no vídeo abaixo, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, responde à visita recente de Vance ao país).
Pelo menos desde 2019 Donald Trump fala em anexar a Groenlândia. Ninguém o levou a sério no primeiro mandato. A volta ao tema na semana de sua posse , quando também prometeu tomar o Canal do Panamá e sugeriu transformar o Canadá no 51o estado americano, causou arrepios em muita gente. O movimento que levou o republicano ao poder no ano passado teve quatro anos para preparar a nova investida. Até agora, Trump está seguindo religiosamente a cartilha do Projeto 2025, do think-tank supremacista Fundação Heritage, cujo eixo central parece ser comprovar a máxima de Hannah Arendt sobre regimes totalitários: “tudo é possível”. Quando ele fala em tomar a Groenlândia, portanto, é preciso julgar a afirmação pelo seu valor de face, mesmo que a iniciativa não prospere.
A alegação é de segurança nacional. A Groenlândia, zurra Trump, é vital para a segurança dos EUA e a paz mundial. Adivinhe quem mais falava em “espaço vital” para seu país no século passado? Pois é.
O problema é que a história não para de pé. Trump alega a presença de chineses e russos no Ártico. Zero novidade: a Rússia é um país ártico e nunca deixou de estar presente na região. A Passagem Nordeste, um corredor marítimo que o degelo ártico está abrindo, é mar territorial russo. E Trump, longe de confrontar a Rússia, tem feito todas as vontades de Vladimir Putin. A China vem dando mais atenção ao Ártico nos últimos 15 anos, é verdade, mas nenhuma movimentação militar chinesa ocorreu na região nesse período.
E, mesmo que houvesse ameaças, não é para isso que serve a Otan? Os EUA sempre tiveram seus interesses de segurança nacional preservados no Ártico justamente porque todos os países árticos exceto a Rússia integram a aliança militar. Anexar um território de um país da Otan alegando segurança nacional é, mal comparando, como se divorciar de uma pessoa para poder ter um caso extraconjugal com ela.
Os EUA têm exatos dois quebra-gelos de grande porte operando, ambos velhos e cheios de panes. A última vez que um navio desses foi produzido no país foi nos anos 1980. A Rússia tem 40 quebra-gelos, a China, três, de último tipo. Se houvesse interesse de segurança no Ártico, os EUA estariam fabricando quebra-gelos e investindo em monitoramento ambiental na região. Trump está desmontando o Estado e sucateando a Noaa, a agência de oceanos e atmosfera. O governo Biden chegou a anunciar um acordo com a Finlândia e o Canadá para a produção de quebra-gelos (o país escandinavo é o maior produtor mundial dessas embarcações). Trump declarou neste ano que quer encomendar 40 quebra-gelos (a indústria naval reagiu com uma risadinha). As ameaças à Dinamarca e ao Canadá dificilmente animarão os progressistas finlandeses a tocar adiante as encomendas.
A P#$&@ DA FOCA
Resta a outra hipótese: Trump quer a maior ilha do mundo porque seu interesse, parafraseando aquele ex-presidente brasileiro, não está “na segurança nem na porra da foca, e sim no minério”.
Trump quer território na Groenlândia porque sabe que sua política externa imperial e isolacionista vai lhe deixar sem amigos que lhe vendam matérias-primas. Em especial a China, que produz 90% das terras raras do mundo e que é alvo preferencial da guerra comercial global movida por Washington.
Por mais que negue o aquecimento global e venha agindo para desmontar todas as políticas de clima do país, Trump também sabe que o futuro da tecnologia está na energia limpa, que precisa de minerais críticos (seu principal auxiliar, afinal, virou o homem mais rico do mundo vendendo carros elétricos). A ideia de anexar a Groenlândia, portanto, tem ares de uma imensa operação de hedge, para proteger a fonte de lucro de seus amigos bilionários e ao mesmo tempo ter uma carta para jogar na mesa num mundo que ele terá ajudado a esquentar 3oC e que não poderá prescindir das novas tecnologias nem das matérias-primas para elas. É cruel e é estúpido, mas cruel e estúpido parecem ser o desejável para a maioria dos eleitores americanos.
Resta saber se vai dar certo para os EUA (e errado para o planeta). Se China e Europa vão assistir quietas ao espetáculo de Trump e Vance (a julgar pela decisão alemã de mandar a austeridade para o vinagre para comprar armas, a resposta é não). E se a Otan vai enfiar a viola no saco e deixar a Dinamarca ser saqueada pelo país que jurou protegê-la. Com a aposta trumpista no caos, tudo pode acontecer – inclusive nada.